terça-feira, 5 de julho de 2011

Poesia Matemática – Millôr Fernandes

Millôr Fernandes
Às folhas tantas 
do livro matemático

Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.

Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.

'Quem és tu?' indagou ele
Com ânsia radical.
'Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa.'

E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos-entre-si.

E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.

Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.

E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.

Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.

Ofereceu, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.

Mas foi então, que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era expúrio passou a ser Moralidade
Como aliás, em qualquer Sociedade.

Millôr Fernandes
(Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", publicado em 1949, com o pseudónimo de Vão Gogo)

sábado, 25 de junho de 2011

Verão – tempo de férias, lazer e exercícios ao ar livre

O Verão do hemisfério norte é chamado de “Verão boreal”, e o do hemisfério sul é chamado de “Verão austral”. O “Verão boreal” tem início com o solstício de Verão do Hemisfério Norte, que acontece em 21 de Junho.

Neste período, as temperaturas permanecem elevadas e os dias são longos.

Geralmente, o verão é uma época do ano linda para ir à praia, tirar férias, fazer viagens, passeios e diversão, para além de muitas outras coisas. Tudo isto somado proporciona-nos um roteiro que, para além de atraente, tem espaço para todos: os que querem gozar os seus merecidos momentos de descanso e aqueles que continuam a trabalhar nesta estação do ano.

No entanto, nos dias muito quentes que se vão fazendo, há um aspecto que nunca nos devemos esquecer – a precaução! Todos devemos tê-la em doses bastante grandes e generosas.

Sem dúvida que o verão traz alegria mas, não havendo uma correcta observância de algumas necessárias precauções, podem surgir alguns malefícios.

Verão é uma época ideal para momentos de lazer ao ar livre. Mas para isso é preciso, não só ter disposição, mas também energia. Por isso, manter uma alimentação saudável torna-se indispensável.

Para além da energia, deverá também prestar-se atenção a outras questões tais como, por exemplo, a “Hidratação”, pois as altas temperaturas aumentam a libertação de líquidos e sais minerais pelo suor. Isto deve levar a que nunca nos devemos esquecer de ter sempre à mão uma garrafinha de água, bem como sumos e/ou chás gelados.

Deve ainda tomar-se muito cuidado e atenção para as “tentações” que estão presentes nas praias, parques e locais de lazer, tais como: o camarão, o peixe frito, o pastelinho, a batata frita, o salgadinho, as pipocas e os hambúrgueres, entre outros. Todos estes alimentos são ricos em calorias e gorduras, cuja ingestão pode causar um certo mal-estar e desconforto.

Outro aspecto importante é a prática de actividades físicas, principalmente durante o verão, as quais devem ser praticadas com cautela. Muitas pessoas sentem-se mal por levar ao extremo o exercício físico, ou por não levar em consideração algumas regras essenciais para dias de muito sol e quentes – como é o caso da hidratação. Beber água antes, durante e após as actividades físicas é de extrema importância devido às altas temperaturas, uma vez que o corpo perde mais água e sais minerais, provocando um aumento do risco de tonturas e de mal-estar. O cuidado com as roupas e o calçado também é fundamental, recomendando-se o uso de modelos confortáveis, tecidos leves e uns bons ténis.

Na estação do sol, as actividades ao ar livre não são apenas constituídas de exercícios. Jogar à bola, brincar com raquetes no parque, ou passear com o cão, são alguns exemplos das actividades que, em períodos de lazer, também promovem resultados físicos e mentais positivos.

Aproveitemos, pois, a energia do verão – saindo de casa e divertindo-nos!
Vasco Lopes da Gama

domingo, 12 de junho de 2011

A Implosão da Mentira

          A Implosão da Mentira
                          ou
        o Episódio do Riocentro

                   Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.


           Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente. 
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente. 
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical? mente,
mente incontinente? mente,
mente hereditária? mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.
Affonso Romano Sant’Anna
(Publicado no livro Política e Paixão - 1984)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Recordações duma viagem ao Alentejo (V) - Marvão

Entre os solos quase esqueléticos que bordejam o Rio Tejo e as grandes serranias de S. Mamede, o Concelho de Marvão, marcado a Norte pelos exuberantes afloramentos graníticos e pelo fértil vale da Aramenha que o delimita pelo Sul, sempre dependeu das águas do Rio Sever, que o separa das terras de Espanha pelo nascente e que justificaram os primeiros estabelecimentos humanos nesta região.

Vista da Vila de Marvão
Contrastando com as secas planuras do outro Alentejo, os estreitos vales da falda norte de Marvão oferecem solos leves e bem drenados amenizados por um micro clima que propiciou a fixação humana deste épocas muito recuadas. Na encosta sul, o vale é mais alargado e as terras de areia dão lugar a pesados solos argilosos que os romanos não esqueceram. Entre estes dois territórios naturais emergem na alta e lavada crista quartzítica os fortificados muros de Marvão. Mas as razões que levaram os homens, ao longo de vários séculos, a investirem naquele alcantilado monte teremos que as procurar nos vestígios arqueológicos que o rodeiam.

Em suaves encostas maioritariamente viradas ao Rio Sever, umas vezes disfarçadas por entre os grandes afloramentos graníticos, outras dominando os pequenos vales, fonte do sustento dos seus construtores, vinte e cinco dólmenes monumentalizaram, pela primeira vez as belas e enrugadas paisagens de Marvão. Contrastando com as muito mexidas, violadas, ou mesmo escavadas antas dos concelhos vizinhos, os monumentos megalíticos de características funerárias do concelho de Marvão, porque, intencionalmente esquecidos, configuram-se como uma das poucas reservas científicas de Portugal. Ainda que volumetricamente não se enquadrem entre as de maiores dimensões, as antas de Marvão são o reflexo de uma economia onde os excedentes não seriam muito abundantes, mas suficientes para possibilitarem aos seus construtores o tempo e a conjugação de esforços para a necropolização da paisagem. Algumas, sabiamente reaproveitadas, mas respeitadas ao longo dos milénios, chegaram até nós inseridas em estruturas agrícolas. Desses longínquos 3º e 4º milénios antes de Cristo conhecem-se, na área do concelho de Marvão, para além de vinte e cinco antas , três menires . Destes, dois conservam-se in situ, parte de um terceiro guarda-se no Museu Municipal. Os setenta centímetros do menir da Água da Cuba, provavelmente o de menores dimensões conhecido isoladamente, contrasta com o dos Pombais, talhado directamente num afloramento natural, cuja altura ultrapassa os três metros.

Castelo de Marvão
A utilização dos rochedos de Marvão para refúgio de povoações assoladas por povos invasores, como atalaia ou como ponto estratégico em termos estritamente militares, datará, pelo menos, do período romano.

Com a chegada dos Romanos, outra página começa a ser escrita nas terras de Marvão. As comunidades que sobreviviam nos alcantilados montes descem de novo aos vales. Mais pela força das armas do que por vontade própria, como os vestígios arqueológicos bem o demonstram no Castelo de Vidago, os habitats fortificados da Idade do Ferro sucumbem e as terras com melhor aptidão agrícola começam a ser intensamente exploradas. Várias vilas e casais agrícolas redesenham a paisagem de Marvão. Porto da Espada, Pombais, Pereiro, Amoreiras, Escusa, Garreancho, entre outras de menor dimensão, são locais ocupados por explorações agrícolas romanas. Faustosas casas revestidas por mosaicos, amplos armazéns, moinhos e termas assinalam a riqueza que os romanos souberam retirar dos solos agora por eles ocupados. No Vale da Aramenha, em terras pesadas e férteis e onde a água abunda, pelos inícios do século I, os Romanos instalam uma nova cidade. Ammaia se chamava. Mais do que um grande centro cosmopolita, reconhece-se hoje que Ammaia terá sido uma cidade de lazer, satélite da grande Mérida.

Entre o século V e o IX, um cataclismo, provavelmente o galgamento de uma barragem que reforçaria o abastecimento de água à cidade, cobre sobretudo a parte baixa de Ammaia com um mar de lama e pedras arrastadas pela força das águas incontroláveis. Apenas os muros mais altos e resistentes sobressaem do inesperado e rápido aterramento da cidade.

Com a decadência da estrutura política romana, assiste-se, pelo menos na área do concelho de Marvão a um enxameamento de pequenos núcleos habitacionais implantados em zonas bem disfarçadas na paisagem. A instabilidade que se vive desde o século V até, praticamente, à época da Reconquista Cristã terá contribuído para essa nova reorganização na ocupação do território do actual concelho de Marvão. Mais de uma vintena de pequenos núcleos, alguns rasgados por arruamentos, atribuíveis à Alta-Idade-Média, espalham-se, sobretudo por entre os grandes afloramentos graníticos que marcam a paisagem das encostas viradas a Norte da Serra de Marvão. Mas a grande formação quartzítica que sustenta Marvão parece não ter estado alheia a todos estes e outros episódios.

Passados os períodos de maior instabilidade, marcados pela desagregação do império romano e da chegada dos bárbaros, com o domínio islâmico a paisagem humana do concelho de Marvão assiste a outra viragem. Gradualmente, os pequenos núcleos urbanos que se constituíram com a desorganização da estrutura romana começam a ser abandonados e as gentes afluem à nova fortificação fundada por Ibn Maruán. 

Com a conquista e refortificação de Marvão, pelos cavaleiros da cristandade, assiste-se, então ao completo abandono desses habitats da Alta-Idade-Média, embora, alguns, como sejam os casos de Ranginha e Barretos, se mantivessem continuamente ocupados. Marvão terá chamado a si, nessa altura, as gentes que, de forma algo dispersa ocupavam os pequenos vales desde a decadência do Império Romano, constituindo-se, assim, como um dos espaços fortificados mais importantes a Sul do Tejo durante a Primeira Dinastia.


ARTESANATO TÍPICO

Entre as espécies arbóreas que cobrem os solos do concelho, o castanheiro, assume-se como um elemento de extrema importância na economia local, em especial na vertente sul onde conta com importantes manchas de soutos e castinçais, geradores de emprego e riqueza.

Efectivamente o artesanato que tem como matéria-prima o castanheiro, é um valor que faz parte do património cultural dos marvanenses, possuindo um grande manancial de variantes, onde se destacam os bordados tradicionais com casca de castanha, as escadas em castanho e a cestaria em madeiro de castanheiro.

A cestaria de castanho é um conjunto de entrançados e entrelaçados, cuja origem está ligada à vida doméstica rural, como forma de armazenamento e transporte dos frutos e resguardo das utilidades da casa, compreendendo a técnica de fabricação de cestos e canastras.

Para além do artesanato ligado ao castanheiro pode-se ainda encontrar alguns objectos trabalhados em madeira, cortiça e barro.

     

    
    

Vasco Lopes da Gama

Recordações duma viagem ao Alentejo (IV) - Castelo de Vide

Castelo de Vide é uma vila portuguesa no Distrito de Portalegre, região do Alto Alentejo.

É sede de um município com 264,83 km² de área, subdividido em 4 freguesias. O município é limitado a nordeste por Espanha, a leste pelo município de Marvão, a sul pelo município de Portalegre, a sudoeste pelo município do Crato e a oeste e noroeste pelo município de Nisa.

O carácter romântico da vila de Castelo de Vide, associado aos seus jardins, abundância de vegetação, clima ameno e proximidade da serra de São Mamede, tornou-a conhecida por "Sintra do Alentejo" (esta designação é atribuída ao rei D. Pedro V).
 
Toda a região de Castelo de Vide testemunha a presença do homem desde os tempos mais remotos da sua existência, pois os vestígios arqueológicos, desde o paleolítico até ao tempo actual, comprovam a continuidade da permanência dos ocupantes ao longo das épocas, ex: menir da meada, necrópole megalítica dos coureleiros, construções de falsa cúpula, várias antas.

O património arquitectónico de Castelo de Vide é de uma grande riqueza, é a expressão de uma história plena de vicissitudes, permanecendo vivos os sinais de diferentes ocupações. Merecem destaque o burgo medieval, o castelo, o forte de S. Roque, as muralhas que envolvem a vila, a judiaria, a sinagoga medieval e as portas e janelas ogivais dos séculos XIV a XVI, bem como muitas e belas igrejas. Para além de constituir uma forte atracção turística, o património arquitectónico de Castelo de Vide constitui um elemento de referência na identidade territorial dos seus habitantes. A população residente é de 4144 habitantes, e a economia local assenta principalmente no turismo.




No que diz respeito à fauna e à flora, a diversidade das condições ecológicas aponta para a presença de numerosas comunidades de animais. Aves consideradas raras, como a águia-de-bonelli e o grifo, repartem o território com gaviões, águias cobreiras, peneireiros-cinzentos, milhafres e tartaranhões, havendo ainda a assinalar a presença do bufo-real e da coruja-do-mato. Para além das aves de presa, é de notar a presença da cegonha-negra em Castelo de Vide, enquanto um numeroso grupo de passeriformes povoa os recantos serranos. No seu conjunto, as espécies referenciadas representam mais de metade das dadas como nidificantes no país.

Numa região em que a expressão mediterrânica é manifesta, a presença de carvalhais e castinçais conferem a este Alentejo um sabor de paragens setentrionais, ambas vivem em paredes meias com sobreiros, azinheiras, oliveiras e todo um cortejo de espécies silvestres, algumas das quais raras.

No subsolo encontram-se várias jazidas de cobre, ferro, chumbo, volfrâmio. A qualidade dos seus níveis freáticos permitem o aparecimento de muitas nascentes por todo o Concelho, destacando-se as propriedades das águas minero-medicinais (Vitalis e Castelo de Vide) exploradas mais a sul na zona de granitos, constituíndo um importante recurso industrial. 

Castelo de Vide é quase sinónimo de águas, nascentes e fontes.

  
No século XVIII há notícias que existiam no termo de Castelo de Vide mais de trezentas fontes, algumas das quais certamente já desaparecidas, mas em contrapartida outras foram surgindo. Das várias fontes e fontanários poderemos destacar as seguintes: Fonte da Vila, Fonte do Montorinho, Fonte da Mealhada, Fonte do Ourives, Fonte do Pêro Boi, Fonte de S. Tiago, Fonte de Martinho, Fonte dos Besteiros, Fonte da Sra. da Penha, Fonte Sant'Ana, Fonte do Penedo Monteiro, Fonte Nova, Fonte do Vale Serrão, Pedra do Alentejo.
Vasco Lopes da Gama

terça-feira, 31 de maio de 2011

Recordações duma viagem ao Alentejo (III) Coudelaria Alter Real (AR)



A fundação da Coudelaria de Alter não foi um acto ocasional e isolado.

Surgiu como corolário lógico de um tempo histórico e de uma política coudélica, personificados em D.João V, o Rei Magnânimo.

A ordem da Junta do Estado e Casa de Bragança, de 9 de Dezembro de 1748, marca a fundação da Coudelaria de Alter, e tem o significado simbólico de " Registo " da Tapada do Arneiro como " Solar " do cavalo de Alter-Real.

O documento fundacional da Coudelaria de Alter foi emitido por D.João V como:
" ADMINISTRADOR DA PESSOA E BENS DO PRÍNCIPE D.JOSÉ, MEU SOBRE TODOS MUITO AMADO E PREZADO FILHO, DUQUE DE BRAGANÇA ".

É ao Rei D.José I que, quase inteiramente, cabe o mérito da estruturação da Coudelaria de Alter:

Formação da manada, instalações coudélicas, alargamento do assento agrícola e da área de pastoreio, promulgação do primeiro regime coudélico que vigorou na Coudelaria.

A Casa Ducal de Bragança foi, como executante da vontade Régia de D.João V e de D.José I, o esteio da fundação e estruturação da Coudelaria de Alter.

A Coudelaria é, então, da Casa Real que a recebeu, em 1770, da Casa de Bragança, num quadro de relação bem definido; a Casa de Bragança, proprietária dos prédios utilizados pela Coudelaria de Alter; a Casa Real, reconhecida como senhoria da manada, e na situação de rendeira daqueles prédios.

Na Picaria Real, em Lisboa, o ensino de D. Pedro de Meneses, 4º Marquês de Marialva e Estribeiro-Mor da Casa Real, alcança a perfeição no rigor da técnica, na beleza dos movimentos, na elegância das atitudes. O Cavalo Alter-Real atinge o seu esplendor.

A primeira vintena do século XIX foi um período de sombras para a Coudelaria de Alter; roubo dos melhores cavalos Alter-Real, danos nas piaras, redução na área do pastoreio, vandalismo nas instalações, primeiras ameaças à integridade étnica da manada.

Em defesa da Coudelaria de Alter agiganta-se, neste período de sombras, a figura do Princípe Regente D.João.
Mas era uma luz longínqua, no Rio de Janeiro, e em Portugal o Marechal inglês Beresford. Era o poder.

- "Que se conserve sempre pura esta raça"
   12 de Dezembro de 1812
-"Que não se consinta que pessoa alguma se intrometa com o que pertence às manadas e suas pastagens"
  18 de Janeiro de 1815.

Da Nacionalização das Reais Manadas à usurpação da Coutada do Arneiro. Questionada até à existência da Coudelaria de Alter.

E mais uma vez D.João, já como Rei. A merecer um registo de memória no historial da Coudelaria de Alter.

CONTINUIDADE DIFÍCIL - 1842 - 1910

Um longo tempo de dificuldades e sobressaltos para a Coudelaria, mas também de graves ameaças à integridade étnica do Cavalo Alter-Real, foi o tempo dos cruzamentos.

COUDELARIA MILITAR - 1911 - 1941

Proclamado o regime republicano, e arrestados os bens da coroa, a Coudelaria é integrada no Ministério da Guerra, na dependência da comissão técnica de remonta, com o nome de Coudelaria Militar de Alter do Chão.

O tempo da Coudelaria Militar é uma presença notável na planificação das instalações e na racionalização da exploração agrícola da Coutada do Arneiro.

RECUPERAÇÃO DO ALTER-REAL - 1942 - 1995

Em Janeiro de 1942 dá-se a integração da Coudelaria no Ministério da Economia, na jurisdição da Direcção-Geral dos Serviços Pecuários.

Começava um longo caminho de meio século de recuperação do Alter-Real.

A recuperação do Alter-Real foi um esforço tenaz e persistente, com tempos de grandeza e de crise, de maior dinamismo e de mais apagada acção, mas, indiscutivelmente, um esforço coroado de sucesso.

REACTIVAÇÃO DA COUDELARIA DE ALTER

1996 - Arranque de uma nova etapa

Preservar e valorizar o património genético e cultural que a Coudelaria de Alter encerra e simboliza …

Um caminho que se dirige em exclusivo ao cavalo mas que passa, também, pelo desenvolvimento sócio-económico cultural e turístico do norte alentejano.

Mérito de definir e traçar esse caminho coube, em 1996, ao engenheiro Fernando Van-Zeller Gomes da Silva, ministro da agricultura.

Um destaque que lhe é devido no memorial da coudelaria, pelo respeito com que contemplou o passado, pela ambição com que perspectivou o futuro da Coudelaria Alter-Real.


 
  
                               


Vasco Lopes da Gama

Recordações duma viagem ao Alentejo (II) - Alter do Chão

                                                Panorâmica de Alter do Chão

                                              Castelo de Alter do Chão

A origem de Alter do Chão poderá ser atribuída a um povoado romano, fundado a partir de um aglomerado da Idade do Ferro em Alter Pedroso.

De Abelterium, cidade romana que vem referenciada no Itinerário de Antonino Pio, terá provavelmente nascido Alter do Chão. 

No reinado de D. Sancho II, o Bispo da Diocese da Guarda D. Vicente, propôs “restaurar e povoar Alter”, atribuindo-lhe o 1º Foral no ano de 1232. D. Afonso III com o objectivo de incentivar o povoamento, manda reconstruí-la e terá concedido novo Foral em 1249. D. Dinis atribui-lhe dois Forais em anos consecutivos, o último data de 25 de Março de 1293 e conferia-lhe todos os privilégios de Santarém.

Em 1359, D. Pedro I mandou edificar o actual Castelo e confirma-lhe, através de nova carta de Foral os privilégios anteriores.

D. João I, Mestre da Ordem de Avis, cede em senhorio a D. Nuno Álvares Pereira, passando os bens para a Casa de Barcelos e posteriormente para a Casa de Bragança, fundada pelo casamento de D. Beatriz, filha do Condestável com D. Afonso, filho bastardo do progenitor da Ínclita Geração.

O Foral de Leitura Nova, foi-lhe atribuído a 1 de Junho de 1512 no decurso da nova reforma mandada efectivar por D. Manuel.

Do período quinhentista as construções que subsistem mostram a vitalidade e importância que a vila tomou.

São deste período o Chafariz Renascentista, Igreja de Nossa Senhora da Alegria e a Janela Geminada, na Rua General Blanco.

Prova evidente do desenvolvimento que Alter alcançou no período Barroco, e do qual se pode orgulhar, são as várias construções civis e religiosas de entre elas algumas imponentes, das quais se destacam: Coudelaria de Alter, mandada construir por D. João V em 1748 por iniciativa do Príncipe D. José, para a produção do cavalo Lusitano, cujo destino era a Arte Equestre, muito em voga nas cortes daquela época; o Palácio do Álamo, Igreja do Senhor Jesus do Outeiro, Igreja do Convento de Santo António e os chafarizes da Barreira e dos Bonecos.

Património de Alter do Chão

Palácio e Quinta do Álamo: 
Moradia brasonada mandada construir em 1649 por Diogo Mendes de Vasconcelos. Importantes alterações no séc. XVIII/XIX. edifício rectangular com larga fachada de dois andares com nove janelas de sacada de ferro forjado, com frontões alternadamente curvos e rectilíneos. Riqueza decorativa no interior com azulejos. Repartição de espaços conforme a época - piso térreo utilitário, residência no andar nobre. O portal, encimado pelo escudo de armas, que dá entrada para a quinta é da segunda metade do séc. XVIII. A quinta é típica desse século, destacando-se um pequeno tanque com decoração de alvenaria e o jardim de buxo. Foi adquirido pela Câmara Municipal, funcionando aí o Serviço Sócio-Cultural, com os seguintes serviços abertos ao público: Biblioteca, Sala de Exposições Temporárias e o Posto de Turismo.
   
Fonte da Praça da República (Fontinha):
Mandada construir em 1556 pelo Duque de Bragança D. Teodósio I. Situada primitivamente noutro local do largo foi removida para o actual em meados do séc. XVII. Estilo renascença, é constituída por uma alpendrada em forma de cúpula dupla sustentada por três colunas, tudo em mármore de Estremoz. No interior os medalhões heráldicos dos Duques de Bragança (Armas de Portugal) e da Vila de Alter. As bicas e o tanque já não são da construção primitiva. Classificado como imóvel de interesse público.

Pelourinho: 
Construído no 1º. quartel do séc. XVI, estilo manuelino, composto de coluna torsa, com decoração vegetalista. Monumento Nacional.

Igreja Paroquial de Alter Pedroso: 

Fundada no séc. XV, dedicada a Nossa Senhora das Neves, alterada do séc. XVII. Interior de uma só nave, altar-mor em talha dourada, portal e torre de raiz medieval. No altar-mor, retábulas e imaginária. Trabalhos em massa decorando o interior do templo

               
Ponte de Vila Formosa: 
Construída pelos romanos nos finais do séc. I, início do séc. II D.C. sobre a Ribeira de Seda, na Estrada que liga Alter do Chão a Chança e Ponte de Sôr. Construída em grossa cantaria aparelhada e almofadada. Consta de 6 arcos iguais entre si e compostos nas frentes por trinta e três aduelas e cinco olhais em forma de pórtico. Monumento Nacional.

Gastronomia

A Gastronomia é variada e saborosa, senão vejamos: Sarapatel, Borrego com Arroz Amarelo (Açafrão), Perna de Borrego com Batatas Assadas, Costeletas de Borrego do Norte Alentejano, Arroz de pato, Pernil, Porco Assado no Forno, Vitela Assado, Ensopado de Borrego, Alhada de Cação. Migas Alentejanas.
Vasco Lopes da Gama

quinta-feira, 5 de maio de 2011

TER FÉ...

Ter fé é ACEITAR os desígnios de Deus ainda que não os entendamos, ainda que não nos agrade. Se tivéssemos a capacidade de ver o fim desde o princípio tal como Ele vê, então poderíamos compreender por que às vezes a nossa vida é conduzida por caminhos estranhos e contrários à nossa razão e aos nossos desejos.

Ter fé é DAR quando não temos, quando nós mesmo necessitamos. A fé sempre encontra algo valioso onde aparentemente não existe; pode fazer que brilhe o tesouro da generosidade face à pobreza e ao desamparo, enchendo de gratidão o que a recebe e o que a dá.

Ter fé é CRER quando é mais fácil ficar na dúvida. Se a chama da confiança em algo melhor se extingue em nós, então não há outro meio senão entregarmo-nos ao desânimo. A crença nas nossas bondades, possibilidades e talentos, tanto como aos nossos semelhantes, sendo a energia que move a vida fazendo grandes vencedores.

Ter fé é GUIAR a nossa vida não com os olhos, mas sim com o coração. A razão necessita de muitas evidências para arriscar-se, o coração necessita só de um raio de esperança. As coisas mais belas e grandes que a vida nos dá não se podem ver, nem sequer tocar, só se podem acariciar com o espírito.

Ter fé é LEVANTAR-SE quando se está caído. Os revezes e fracassos em qualquer momento da vida entristecem-nos, mas mais triste é ficarmos a lamentar-nos no chão frio da compaixão, acompanhados pela frustração e amargura.

Ter fé é ARRISCAR-SE na troca de um sonho, de um amor, de um ideal. Nada do que vale a pena nesta vida se pode conseguir sem esta dose de sacrifício, que implica desprender-nos de algo, ou de alguém, a fim de adquirir algo que melhore o nosso próprio mundo e o dos outros.

Ter fé é VER positivamente a vida para a frente. Não importa quanto incerto possa parecer o futuro, ou quanto doloroso tenha sido o passado. Quem tem fé faz do hoje um fundamento do amanhã e trata de vivê-lo de tal maneira que, quando fizer parte do seu passado, possa vivê-lo como uma grata recordação.

Ter fé é CONFIAR, porém confiar não somente nas coisas, mas sim no que é mais importante... nas pessoas. Muitos confiam no material, porém vivem relações vazias com os seus semelhantes. Certamente sempre haverá gente que traiu a nossa confiança; assim o que temos que fazer é seguir confiando, sendo mais cuidadosos com aqueles em quem confiamos.

Ter fé é BUSCAR o impossível: sorrir quando os dias se encontram nublados e os nossos olhos estão secos de tanto chorar. Ter fé é nunca deixar de ter um sorriso nos lábios, nem sequer quando se está triste, porque nunca sabemos quando o nosso sorriso pode dar luz e esperança à vida de alguém que se encontra em pior situação do que a nossa.

Ter fé é CONDUZIR-SE pelos caminhos da vida, da mesma forma que uma criança segura a mão de seu pai. É entregarmos os nossos problemas nas mãos de DEUS e nos lançarmos nos Seus braços antes de cair no desespero. Ter fé é descansarmos para que ELE nos carregue, em vez de carregarmos nós mesmos a nossa própria coleção de problemas, para que na nossa vida haja suficiente fé para enfrentar as situações difíceis, juntamente com a necessária humildade para aceitar o que não se pode mudar. 

terça-feira, 3 de maio de 2011

Obrigado, Joaquim Pessoa!

Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa nasceu no Barreiro em 1948.

Iniciou a sua carreira no Suplemento Literário Juvenil do Diário de Lisboa.O primeiro livro de Joaquim Pessoa foi editado em 1975 e, até hoje, publicou mais de vinte obras incluindo duas antologias. Foram-lhe atribuídos os prémios literários da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura (Prémio de Poesia de 1981), o Prémio de Literatura António Nobre e o Prémio Cidade de Almada.

Poeta, publicitário e pintor, é uma das vozes mais destacadas da poesia portuguesa do pós 25 de Abril, sendo considerado um "renovador" nesta área. O amor e a denúncia social são uma constante nas suas obras, e segundo David Mourão Ferreira, é um dos poetas progressistas de hoje mais naturalmente capazes de comunicar com um vasto público. Como prova da sua sensibilidade atenta ao real e à actualidade, aqui deixo este seu texto:

"Obrigado, excelências.
 
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade 
de vivermos felizes e em paz. 
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar 
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem 
dignidade. 
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações. 
Obrigado por se orgulharem de nos tirar 
as coisas por que lutámos e às quais temos direito. 
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria. 
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero. 
Obrigado pela vossa mediocridade. 
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer. 
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber. 
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera. 
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias 
um dia menos interessante que o anterior. 
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar. 
Obrigado por nos darem em troca quase nada. 
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade. 
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade 
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço. 
E pelo vosso vergonhoso descaramento. 
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, 
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar. 
Obrigado por serem o que são. 
Obrigado por serem como são. 
Para que não sejamos também assim. 
E para que possamos reconhecer facilmente 

quem temos de rejeitar."

Autor: Joaquim Pessoa

sexta-feira, 29 de abril de 2011

50 anos de odisseia no espaço

Há 50 anos atrás, mais precisamente no dia 12 de abril de 1961, o cosmonauta russo Yuri Gagarin, então com 27 anos, completava uma façanha inédita para a humanidade, dava início à corrida espacial e acirrava a rivalidade entre EUA e União Soviética. Há 50 anos, Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok 1, era o primeiro homem a entrar na órbita da Terra. O voo de 108 minutos no espaço de Yuri Gagarin (dando uma volta completa ao redor do planeta tendo proferido a famosa frase "A Terra é azul"), marcou um novo horizonte para a humanidade e, da noite para o dia, transformou um piloto de origem camponesa em herói.

Gagarin - astronauta que virou herói
Esta primeira grande aventura humana no espaço vem sendo marcada por homenagens em vários países. Em Londres, Inglaterra, uma estátua de Gagarin será instalada em julho na Trafalgar Square.

Recebido como herói nacional após desembarcar da sua cápsula, Gagarin continuou trabalhando para a agência espacial russa até 1968, quando faleceu no comando de um jato MiG.

Convirá aqui também fazer referência ao facto de que, em outubro de 1957, militares americanos captaram ruídos emitidos pelo satélite soviético Sputnik-1. Foi aí que eles perceberam que a corrida espacial já tinha começado. No início de 1958, o presidente Eisenhower reagiu a esta situação criando uma entidade civil controlada pelo governo e, em outubro de 1958, a Nasa iniciou as suas operações.  Foi assim,  com muita pressa,  que  surgiu a  mais  famosa  agência espacial do mundo.                                                                                                                    
Ainda em outubro de 1958, o primeiro projeto da Nasa, a sonda lunar americana Pioneer 1, desintegrou-se no espaço. Enquanto isso, em novembro, a cadela russa Kudriavka, da raça laika, tornava-se o primeiro ser vivo a viajar para fora do planeta.

Entretanto, o presidente John Kennedy, lançou o desafio de enviar um homem à Lua até o fim da década de 1960. Começava o projeto Apollo. Em 1967, durante um teste numa plataforma de lançamento, um incêndio na cápsula da Apollo 1, em terra, matou os três astronautas que a ocupavam. Mas a capacidade de reação da Nasa foi grande e, no dia 20 de julho de 1969, enquanto desembarcava em solo lunar, Neil Armstrong disse: “Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”. Finalmente, os russos tinham ficado para trás.

A nova revolução tecnológica provocada pela Nasa surgiu no fim da década de 1970, com a criação dos vaivéns espaciais, veículos orbitais reutilizáveis que revolucionaram as viagens para além da Terra. Foram eles os responsáveis pelos mais recentes sucessos e desastres da agência. O primeiro marco negativo ocorreu em 1986, quando, 73 segundos após o lançamento, o vaivém espacial Challenger explodiu nos céus da Flórida e matou todos a bordo – seis astronautas e uma civil, a professora Sharon McAuliffe. Mais uma vez, a agência se recuperou, a ponto de, em abril de 1990, completar com sucesso a instalação em órbita do telescópio Hubble, que até hoje possibilita descobertas inatingíveis para observatórios terrestres.

Mas uma segunda tragédia aconteceu em janeiro de 2003, quando a nave Columbia se desintegrou durante a entrada na atmosfera e matou sete tripulantes. 

Enquanto tenta, de novo, recuperar-se, a Nasa pensa nos desafios futuros e em voltar à Lua até 2020.
Vasco Lopes da Gama